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O “Picasso” chinês e seu discípulo

por: Guilherme Gorgulho

MAIS DE 40 ANOS atrás, o jovem pedagogo Sun Chia Chin deixou Hong Kong para encontrar, no Brasil, o mestre Chang Dai-Chien (1899-1983). O seu objetivo era aprender um pouco da arte da pintura desenvolvida por Chang, o primeiro artista plástico da China a ser mundialmente conhecido – a plasticidade de suas obras chegou a lhe valer o epíteto “Picasso chinês”. Hoje, o discípulo honra o mestre escrevendo um livro sobre a filosofia de vida e os pensamentos de Chang, aprendidos durante o período de três anos (1962-1965) em que ambos viveram em Taiaçupeba, na zona rural do município paulista de Mogi das Cruzes.

Um dos mais bem-sucedidos discípulos do “Picasso da China” e professor aposentado da Universidade de São Paulo, Sun atualmente mora em Taiwan. Nos dois últimos anos, ele divide seu tempo entre as aulas que ministra em uma instituição de ensino superior local e – com o apoio de jovens universitários chineses – o trabalho de pesquisa e de redação do livro sobre Chang, cujo lançamento no mercado chinês está previsto para o final deste ano.

Diferentemente da maior parte das biografias existentes sobre Chang – que abordam sua vida pessoal e seu legado para as artes plásticas –, Sun quer revelar as reflexões do mestre sobre o mundo, sem recorrer às reproduções de seus famosos quadros. “Quero transmitir, para os jovens, as idéias e os pensamentos de Chang, e não a sua técnica de pintura”, explica Sun. “Acho cada geração tem talento próprio, não precisa ser igual à outra. O que realmente desejo mostrar é a grandiosidade humanística de Chang. Apesar de ser de baixa estatura, ele surge aos nossos olhos como um gigante.”


APRENDIZADO E IÊ-IÊ-IÊ


Para Sun, o período em que viveu no sítio de Chang, em Taiaçupeba, é inesquecível. “Eu era tratado como uma pessoa da família, como um filho, e me sentia muito à vontade e livre”, conta ele em português, com forte sotaque oriental. Lá, o aprendizado seguia estritamente o sistema chinês: o mestre mostrava sua coleção de pinturas, explicava os verdadeiros atributos de uma obra de qualidade e como diferenciar os estilos das diversas dinastias. “Por outro lado, eu mostrava minha pintura para ele, que criticava e dizia o que estava errado”.

São inesquecíveis, também, as tardes de domingo, quando Sun moía minerais, preparava pigmentos e misturava tintas para seu mestre em frente ao aparelho de televisão. “Era a época de Roberto Carlos, Wanderléa e Ronnie Von, o auge da Jovem Guarda. Eu não entendia nada de português, mas, assim como todos os outros, não conseguia desgrudar os olhos da telinha.”

AMANTE DA LIBERDADE

Chang Dai-Chien rodou o mundo nos seus fecundos 84 anos de vida e viveu no Brasil entre as décadas de 50 e 70. Nascido na província Sichuan, é apontado como expoente máximo das artes chinesas do século XX – alguns se referem a ele como “a história viva da pintura chinesa” – e desenvolveu um estilo que se aproximava do expressionismo abstrato. Ele acreditava, de acordo com Sun, que, um dia, a arte da pintura será universal, sem diferenças entre Oriente e Ocidente, e que os rótulos existentes não abrangerão as diferenças estilísticas, sendo úteis apenas para classificar a procedência do artista.

Admirador de Pablo Picasso, a quem é freqüentemente comparado, o chinês chegou a se encontrar com o gênio espanhol no sul da França, em 1956, mas não escondia suas críticas ao autor de Guernica. “Chang falava que Picasso era muito esforçado, estudioso e conhecedor do mundo, mas infelizmente seu instrumento era muito ruim: suas pinceladas não eram feitas com um pincel bom. Por isso, quando voltou ao Brasil, Chang mandou vários pincéis para Picasso”, afirma Sun.

Bom exemplo do reconhecimento da obra de Chang foi a venda, em julho deste ano, do seu quadro Jiangshan Wanli Tu, de 1968, que atingiu uma preço recorde para uma obra de arte chinesa contemporânea: 9 milhões de dólares (cerca de 73 milhões de iuanes). A provável causa dessa valorização, é o espantoso crescimento da economia chinesa, favorecendo o enriquecimento da população. “Antigamente o povo era pobre, hoje há ricos”, opina Sun. Segundo ele, outro fator importante para o aquecimento desse mercado vem da ação do governo da China de adquirir quadros
de Chang para abastecer os museus do país.

Como seguidor do estilo criado por Chang e profundo conhecedor de sua arte, Sun Chia Chin poderia enriquecer os debates a respeito das polêmicas falsificações que seu mestre produziu, muitas delas nos acervos de renomados museus americanos e europeus. De fato, Chang admitia ter feito cópias de quadros de diversas dinastias com uma maestria ímpar capaz de enganar o mais apurado olhar. O discípulo, no entanto, esquiva-se ao ser questionado. “Muitas coisas eu não falo para deixá-los [os pesquisadores] continuarem os estudos. (…) Chang morreu. Se eu não falar, todo mundo continuará estudando, ou seja, Chang permanecerá vivo no coração das pessoas.”

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